05 de February - 2012 - 17:06
Há três anos no comando da Fundação
Nacional do Índio, Funai, o paraense Márcio Augusto
Freitas de Meira está à frente daquele que é
considerado um dos pontos nevrálgicos do Governo Lula: a
condução da política indigenista brasileira mais
se assemelha a um barril de pólvora sempre prestes a explodir.
Para muitos, com sua serenidade e conhecimento de causa, o
antropólogo conduz uma das mais reconhecidas políticas
indigenistas do mundo.
O modelo indigenista do Brasil é
hoje copiado em vários países: sua população,
que vive quase em sua totalidade (98%) na floresta amazônica,
chama a atenção mundial. O atual Censo Demográfico
do IBGE deve apontar uma população de mais de um milhão
de índios distribuídos por todo o país. No Censo
de 2000, esta população era de 750 mil índios.
Segundo Meira, o crescimento entre os índios brasileiros é
cinco vezes maior que na população geral do País.
“Estamos em um período de queda da mortalidade e aumento da
população”, revela.
P: Qual é a atual população
indígena brasileira?
R: Temos dificuldade de
ter dados precisos no Brasil sobre a população
indígena. Este ano vamos fazer um censo, juntamente com o
IBGE. Pela primeira vez vamos fazer um censo nacional que vai fazer a
contagem também nas aldeias. Assim será possível
saber precisamente a população indígena no
Brasil.
P: Ainda existem povos isolados no Pará?
R:
A diversidade no Pará é muito grande. O Pará é
um estado grande, amazônico, onde a maioria da população
indígena do Brasil vive e nós temos uma diversidade de
povos indígenas muito grande, inclusive de povos isolados, que
não têm contato com o ocidente. No Noroeste do Pará,
por exemplo, temos referências de povos indígenas ainda
sem contato.
P: Viver em contato com os não
índios descaracteriza o indígena?
R: Na
verdade a definição de quem é um indígena
não se dá apenas ou principalmente por aquilo que nós,
ocidentais achamos que os caracteriza e os identifica, que é a
imagem que aprendemos na escola, que remete a uma imagem romântica.
Carregamos muito uma idéia de que eles têm que viver na
mata, caçando. Se ele não está com arco e flexa,
se está com uma caneta, estudando na universidade, nossa
tendência é achar que, quanto menos ele estiver próximo
à mata e quanto mais próximo estiver de uma
universidade ele perde a sua identidade indígena. Isso não
é verdade. O que define a sua identidade é a sua
maneira de encontrar soluções ou caminhos para a
firmação de sua cultura, de sua língua de suas
tradições. É óbvio que um povo de recente
contato, de cerca de entre 20 e 40 anos de contato, que quase não
fala o português é diferente de um povo que tem quase
400 anos de contato com o ocidente, que fala português, que
muitas vezes até se esqueceu de falar sua língua. Mas
sempre há algum elemento de sua identidade, de suas tradições
que os faz diferente.
P: Qual é a população
mais frágil hoje no Pará?
R: Eu diria
que tem alguns povos que vivem em uma situação de
conflito muito grande, como os índios Parakanã, na
terra indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu,
ou os Araras que vivem na região de Cachoeira Seca. Ali
existem muitos posseiros que ocuparam aquelas áreas nos anos
70 e 80 . Isso gerou um processo de desmatamento e ocupação
ilegal. Nestes dois casos temos populações em situação
de vulnerabilidade.
P: E quanto aos Parakanã
que vivem em Tucuruí?
R: Eles estão
protegidos. A Funai tem um convênio com o Programa Parakanã,
financiado pela Eletronorte como forma de compensação
pelo impacto provocado pela construção de Tucuruí.
A terra Parakanã foi demarcada pela Funai.
P:
Os Parakanã de Apyterewa têm algum tipo de proteção?
R:
Sim, a terra indígena Apyterewa foi homologada pelo presidente
Lula. Agora falta a retirada dos invasores que ainda estão lá
dentro, para que a Funai desenvolva uma política. Até
isso é difícil. Quando entramos na área, somos
ameaçados pelos invasores ilegais. Os índios estão
sofrendo ameaças. É por isso que eu considero essa
população a mais vulnerável.
P:
Isto nos remete à construção de Belo Monte. O
indígenas têm se manifestado contra a construção...
R:
Acho que em primeiro lugar é importante diferenciar o momento
histórico em que foram construídas as usinas de Balbina
e Tucuruí com o atual momento. Naquela época não
existiam políticas ambientais. As exigências ambientais
que existem hoje não existiam na época. A legislação
indigenista é hoje muito mais forte. Aliás, as duas
estão muito próximas: a indigenista com a ambiental,
que têm um peso muito grande na proteção
socioambiental. Belo Monte não pode ser colocada no mesmo
patamar que foi Tucuruí e Balbina, que foram um escândalo
na época. No caso de Belo Monte, o próprio projeto foi
modificado em função destas exigências.
P:
Mas não deixam de impactar. A população indígena
que vive na curva grande do Xingu, por exemplo, vai ficar sem
água...
R: Sim, não deixam de impactar,
mas estas questões são justamente as que o Ibama, em
suas manifestações, colocou como preocupações
e como exigências de medidas que o empreendedor deve tomar para
minimizar estas questões. Ou seja, que o impacto, que sempre
acontece, seja acompanhado de todas as medidas cautelares.
P:
Essas condicionantes não agradaram ainda as populações
indígenas da região, que não querem a construção
da usina...
R: A Funai não se ausentou em
nenhum momento. Temos os registros de um vasto calendário de
reuniões e encontros que foram realizados com os indígenas
da região durante todo o processo de discussão de Belo
Monte. Desde o primeiro momento, e antes até de qualquer
começo até o presente momento a Funai acompanhou os
encontros em todas as aldeias, de toda a região. Nós
fizemos um Termo de Referência, que faz parte do estudo de
impacto ambiental elaborado pelo Ibama, que é extremamente
exigente. Condicionamos para que este Termo de Referência bem
como o Estudo de Impacto Ambiental fosse apresentado aos índios
nas aldeias, inclusive muito antes da realização das
audiências públicas. Todas as informações
foram realmente prestadas às populações
indígenas.
P: Qual é a posição
da Funai sobre Belo Monte?
R: A Funai tem uma posição
clara e rígida. Não admitimos que qualquer
empreendimento seja feito sem o cuidado e respeito à
legislação. Todos os itens que a legislação
brasileira tem sobre os impactos devem ser cumpridos. Nós
cumprimos isso de forma muito rígida e vamos continuar
cumprindo, afinal foi emitida apenas uma licença prévia
pelo Ibama e vamos acompanhar atenciosamente. Ou seja, se de fato o
empreendimento for feito, terá que ser feito de uma forma que
permita que toda a população indígena daquela
região se beneficie desse empreendimento.
P:
Como a Funai vê o modelo de saúde indígena
brasileiro?
R: Ele implantado no Brasil, criado por
lei, que é o Subsistema de Saúde Indígena, que
criou os Distritos Sanitários Especiais Indígenas
(Dseis). É um modelo de gestão participativa. Ele
avançou muito em relação ao que era antes, tanto
é que há um contraste quando se compara com as décadas
de 70 e 80. É importante reconhecer isto. As campanhas de
vacinação em massa são modelo para outros
países. Não é a toa que a população
indígena cresce cinco vezes mais que a média da
população nacional. Mas é óbvio que toda
política pública precisa sempre estar sendo
aperfeiçoada. A Funasa [Fundação Nacional de
Saúde, órgão responsável pelo atendimento
à saúde indígena] não cuida apenas da
saúde indígena. Ela é uma parte minoritária
no orçamento. Por isso acho que em alguns estados não
foram dadas as prioridades e atenção necessárias.
P:
O senhor é favorável à criação da
Secretaria de Saúde Indígena?
R: É
necessário reconhecer que o Sistema de Saúde Indígena
teve muitos avanços. A própria campanha de vacinação
contra a H1N1 é um exemplo disso. Os indígenas foram
colocados como prioridade nas etapas de vacinação. Mas
a solução é realmente a criação da
Secretaria Especial da Saúde Indígena. O modelo deve
ser mantido, com autonomia dos Distritos de Saúde indígena.
E acho que é também prioridade a realização
de concurso público para a contratação de
pessoal qualificado. Isto não é feito do dia para a
noite.
P: O senhor sofreu recentemente forte pressão
de lideranças indígenas da região de Altamira. O
que aconteceu?
R: Foi falta de compreensão e
entendimento. Havia uma notícia de que eu iria fechar a Funai
de Altamira. Eu tive a oportunidade de me reunir com estas lideranças
aqui em Brasília e pude explicar a eles a nova estrutura da
Funai no Brasil inteiro. Eles perceberam que na verdade estamos
fazendo uma mudança que vai melhorar nosso trabalho.
P:
E quais são as mudanças?
R: Estamos
criando coordenações regionais no Brasil inteiro, com
autonomia, e ampliando para seis a nossa frente de proteção
etnoambiental. No Pará estamos criando a Frente de Proteção
Etnoambiental Médio Xingu. Já existe no Estado a Frente
Cuminapanema, que cuida dos Zo’é. A nova frente do Xingu foi
idealizada porque a região de Altamira necessita de um cuidado
especial, devido à forte pressão do entorno: alto
índice de desmatamento, violência, grilagem e projetos
de duas grandes obras de infra-estrutura na região: a
construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e
a BR 230. A frente Médio Xingu ficará responsável
pela proteção das tribos próximas a Altamira.
Ypiranga,1229 - Vila São Luiz -Cep. 79825-140 - Dourados - MS - Tel. (67) 3422-2617.
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