Dourados - Mato Grosso do Sul - Brasil, 05 de February de 2012.

Os índios, como Heráclito

05 de February - 2012 - 16:53

Os índios, no caminhar da humanidade, ficaram apartados da cultura ocidental que era baseada no homem socrático - cristão ocidental- e não sofreram a influência filosófica do mundo ocidental. Eles mantiveram por milhares de anos os seus instintos primitivos, necessitando dos seus ritos e signos - iguais aos gregos de Homero - o Homem Homérico, a vida trágica para vencerem a existência real, sensível, ou seja: mantinham os sentidos da vida real acima dos conceitos de “essência" do mundo, da racionalidade ocidental - pessoas com afetação, superficialidades radicais das quais são prisioneiras através das imagens da indústria cultural e da publicidade mediática e da qual não veem mais como sair, sufocam nosso cotidiano urbano, substituindo o que foi a base da cultura ocidental, ou seja, a etinicidade socrática que desembocou na moralidade cristã -  que nega o mundo sensorial dos sentidos, pela exuberante racionalidade. O índio tem os seus conhecimentos e entendimentos através dos sentidos, do real vivido, da força da imaginação, do sensorial. O índio é um homem trágico, rechaçado pelo homem teórico socrático/platônico, que só aprecia aquilo que  pode compreender, renunciando ao mítico do encantamento, do entendimento das impressões sensíveis até as complexas operações do espírito.
 
Portanto, por milhares de anos, foram totalmente separados no caminhar da humanidade, na maneira de sentir a vida, na formação de suas culturas, pois um (o homem civilizado) coloca a razão humana por meio da lógica, caindo em um  fundamentalismo do intelecto, enquanto que os outros ( os índios) estão mais próximos do existencialismo, são arcaicos, primitivos cujo instinto era, ou é, ou foi a força criadora-afirmativa.  Como a formação cultural dos índios se deu em um processo mais livre na satisfação do desejo e prazer, e com isto, um amálgama mais firme com a natureza e a realidade, a sua imaginação, sua sensibilidade, sensação aguçada dos sentidos visionários são mais aguçados e livres do que do mundo ocidental que vem dentro de uma amarra da etinicidade socrática e moralismo cristão em que o Estado mitiga os desejos naturais-primitivos com regras de condutas sociais, disciplina e segurança dos membros da sociedade. É a formação de uma sociedade totalmente diferente da dos índios e minorias étnicas, impedindo um fluir mais solto do imaginário, do encantamento, do respeito à natureza, etc.

Veja, não estou analisando aqui os conhecimentos científicos do mundo ocidental ,e, sim ,comportamentos humanos dentro de uma sociedade e o seu fluir para a vida.Hoje, infelizmente,o que se vê é o desaparecimento das comunidades indígenas ainda autênticas, sem desestruturação psicosociológica; os jovens índios sofrem fortes influências, deixam as suas aldeias,os seus mitos,os signos,a oralidade dos velhose se perdem na massa urbana do consumismo e da superficialidade da vida, jovens ainda,de 12 a 13 anos, período importante para oralidade transmitida e rituais para nome definitivo,etc. E,assim,vamos nesse navio-mundo: a elite, os trabalhadores, os políticos, os intelectuais e o lupensinato jovens índios das urbes. Sim, os índios lupens do Herbert Marcuse, os índios no meio do passar dos tempos em um ritmo alucinante de mudanças culturais, comportamentais, psicossociais  e econômicos. Talvez Darci Ribeiro tenha sido um dos grandes pensadores do século XX que via profundamente a importância do respeito que deveria ter a sociedade ocidental para com as minorias étnicas, isto para o próprio bem do equilíbrio psico-biológico-social dessa sociedade baseada no que foi a moral socrática-platônica-cristã. Darci dizia que à medida que o mundo ocidental fosse gradualmente levando ao etnocídio os povos arcaicos nativos, na mesma medida a humanidade estaria se degradando sutilmente nos vários aspectos.

Tive a oportunidade de assistir a um profundo debate no Parque do Xingu, no Posto Leonardo, sobre o existencialismo da vida indígena, do  ser autêntico existencialista-fenomenológico por natureza pura, quando se falava em Hobbes, Kierkegaard, Nietzsche, Husserl, Heidegger, Freud, Marx, Strauss Levi e outros - fazendo parte desses debates Darci Ribeiro, professor Carlos Moreira, Orlando e Claudio Vilas Boas(o Leonardo já era falecido, bem como o Dr.Noel Nutels), Dr.Miranda e Dr.Godmann(ambos da pneumologia sanitária-Ministério da Saúde)- e outros tantos. Depois vieram as antropólogas Carmen Junqueira, Berta Ribeiro, Lux Vival, Betty Medelin e outras que preparavam as pedagogas para trabalharem em áreas indígenas.

Hoje, triste trópico, temos a Funasa,  cabide de emprego dos despreparados, cargos políticos partidários de baixo nível de probidade e proficuidade; já, a educação, tornou-se responsabilidade das pobres e despreparadas prefeituras que catam despreparados professores nas ruas das cidades do interior e os jogam dentro das aldeias; cheguei a ver indiozinhos usando pedaços de chinelos "Havaianas"como raspador, no lugar de borracha.

Vejo melhor a sabedoria dos velhos índios do que o conhecimento científico pela metade dos jovens índios socrático-descartiano que trocaram o sacramento psicoativo das ervas, plantas, cogumelos, raízes, de usos medicinais - utilizados desde tempos imemoriais como ferramenta de cura e êxtase visionário - preparados pelos curadores e erveiros , velhos índios que sempre levaram ao fortalecimento do equilíbrio psico-biológico-social por milhares de anos dos povos indígenas e nativos transmutados,transfigurados pelos jovens índios e nativos das urbis pelo álcool e outras drogas, como venho acompanhando, jovens que eu vi nascer dentro dos ritos da aldeia-comunidade. Hoje número significativo já nasce nos hospitais, perdendo os ritos imemoriais; nas urbis a oralidade sagrada nos cerimoniais da aldeia são trocados por uma oralidade fútil, superficial, estéril, sobrevivência individual. Jovens índios que, na sua maioria, com poucas exceções, tornar-se-ão ou já são os lupens das urbis e suas mazelas todas como vem acontecendo com jovens pelo mundo afora. Sérvios, croatas, macedônios, jovens dos países asiáticos, norte da China e várias outras minorias étnicas.

Décadas passadas, já fiz uso de ervas, plantas e raízes psicoativas, mas muito bem preparadas pelos velhos nativos e índios-curadores sacramenteiros, seja com a mescalina do peiote, no México, em um congresso internacional de saúde indígena; do ayashuasca no Acre, principalmente com os índios ywanawá do rio Gregório,onde fui delegado da Funai. Abro parênteses para registrar que este foi um tempo em que os índios trabalhavam como escravos para a fazenda 7 Estrelas do grupo Varig/Cruzeiro do Sul, no cafundó do Acre. Foi quando surgiram Chico Mendes e Marina Silva, ajudando na mudança desta situação, bem como os índios Katurina e Kulina, da mesma região, libertando-os e demarcando os seus territórios memoriais.

Eles não conheciam o que era a Funai, e os índios tinham que trabalhar extraindo o látex, transportando sob o jugo do gerente da fazenda, conhecido como Pernambuco, seu Contreiras. Foi, então, criada a cooperativa dos índios, que então passaram a vender a borracha em Eurinepé, Rio Juruá, para a Conab.  

Já fui mochileiro e passei pela África, mais precisamente na Eritréia, onde os velhos nativos preparavam-me o psicoativo iboga, hoje uma planta pesquisada para cura dos dependentes de heroína, superando todos os índices dos tratamentos psiquiátricos convencionais. Hoje se fala em liberação da maconha para uma massa de jovens sem preparo psicológico e de formação de personalidade. Encaro isso como um grande perigo de que eles se transformem em lupens. E assim vai o mundo ocidental... Por isso prefiro a sabedoria dos arcaicos/primitivos ao conhecimento racionalizado.

Os jovens índios têm muito mais para aprenderem com os velhos índios visionários, mágicos, místicos do que nos bancos das faculdades. Digo faculdades, porque Universidade não são esses ensinos superiores.  Universidade são instituições que formam pessoas com uma visão mais ampla; se nossas universidades formassem pessoas sábias, os índios não estariam passando pela desestruturação que vêm passando, porque não serão os índios formados de forma estanque que irão resolver os graves problemas dos povos indígenas, e, sim, unidos à intelectualidade brasileira quando assim entender a importância dos grupos étnicos minoritários para a sobrevivência da humanidade.


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