05 de February - 2012 - 17:24
Entre 70 e 80 líderes
indígenas estarão em Brasília nos dias 2 e 3 de agosto para pedir aos
senadores que votem favoráveis à criação da Secretaria de Saúde Indígena
(Sesai). A secretaria é uma das seis previstas para o Ministério da
Saúde, segundo o Projeto de Lei de Conversão (PLC 8/2010) da Medida
Provisória (MP 483), que modifica a estrutura da Presidência da
República. A votação está prevista para o dia 3. O ISA lançou uma
cyberação em apoio à secretaria.
Com a nova secretaria, o atendimento à saúde indígena escapa do controle
da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), alvo de denúncias de corrupção,
desvios de recursos, aparelhamento partidário, e passa a responder
diretamente ao Ministério da Saúde. Caso o PLC não seja votado, a MP
perde eficácia e a Funasa permanece com a saúde indígena.
A mobilização das lideranças indígenas foi confirmada nesta terça-feira
ao site do ISA por Valdenir Andrade França e Luiz Brazão dos Santos,
ambos da etnia Baré, no Alto Rio Negro, e Edmilson Canale, dos Terena,
no Mato Grosso. Integrantes do Conselho Nacional de Saúde (CNS), eles
afirmam que em ano eleitoral é preciso definir quais os políticos
comprometidos com a defesa dos interesses indígenas. “Diante de tantas
mortes de crianças, jovens e adultos nas aldeias por falta de
atendimento, queremos que os senadores nos ajudem a corrigir o sistema”,
diz Valdenir França, da Coordenação das Organizações Indígenas da
Amazônia Brasileira (Coiab) na Comissão Intersetorial de Saúde Indígena
do CNS. Veja aqui uma cronologia dos principais fatos ocorridos entre
janeiro de 2009 e julho de 2010 em relação ao atrendimento à saúde
indígena pela Funasa.
Índio decide eleição
“Os políticos têm de saber que em muitas regiões a população indígena
vai definir a eleição de senadores e deputados. Inclusive no Amazonas,
onde há a maior população indígena que vota. Estamos correndo atrás de
saber quem tem compromisso com a saúde do índios, quem são parceiros e
quem não são”, afirma França.
Edmilson Terena, coordenador do Fórum de Presidentes do Conselho de
Saúde Indígena (Condisi), diz que a mobilização dos dias 2 e 3 também
visa sensibilizar os senadores para que haja quórum na votação do PLC.
“Se não for votado até dia 4 de agosto, a MP perde eficácia e tudo
continuará como está, o que não é de interesse nosso.”
Em 7 de julho, a Câmara dos Deputados aprovou o PLC da MP 483. Agora
falta o voto dos senadores. Segundo Luiz Brazão dos Santos, um dos
diretores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn), o
projeto de lei é um avanço em relação à MP – editada em março deste ano
– pois, além de criar as novas secretarias, retira expressamente da
competência da Funasa a atenção básica à saúde indígena e transfere do
Departamento de Saúde Indígena para o Ministério da Saúde os cargos em
comissão e funções gratificadas.
Médico sugere mudança de critérios
O médico sanitarista Douglas Rodrigues é coordenador do projeto Xingu da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e responsável pelo
atendimento médico de 2,2 mil índios que vivem nas aldeias do Médio e
Baixo Rio Xingu. Em entrevista ao ISA, ele revelou um dos motivos pelos
quais concorda que a saúde indígena deva sair do controle da fundação.
“A Funasa continua trabalhando com os índios como no tempo em que
controlava malária no meio do mato. O trabalho de saúde indígena é muito
complexo. São 400 mil índios aldeados no Brasil, e cada grupo de mil é
diferente de outros mil e estes de outros 500 e por aí vai. Assim, os
critérios comuns de saúde pública, como um médico para dois mil
habitantes – que valem para cidades como São Paulo –, não servem para os
índios do Xingu, nem para os Ianomâmi, onde talvez seja necessário um
médico para 500, 300 habitantes. Os índios são muito vulneráveis, estão
em locais distantes e de difícil acesso”, diz Rodrigues.
“Em 10 anos de gestão do sistema de saúde indígena, a Funasa demonstrou
que não conseguiu adquirir competência técnica e de gestão para fazer
com que os recursos, que não são pequenos – investe-se hoje per capita
no índio duas a três vezes o que se investe na população não indígena –
tenham bons resultados. O atendimento fica sempre muito aquém do
esperado.” O médico dá um exemplo: “Acabei de chegar de uma aldeia onde
uma criança apresenta lesão renal importante, congênita, e que está num
bom momento para tratar, para fazer cirurgia. Ela vem sendo acompanhada
num serviço de boa qualidade, mas acabou perdendo consulta por falta de
passagem para a viagem. E por não haver vaga na casa abrigo, sempre
lotada. Em todas as aldeias você verá essa situação. Pessoas que
precisam sair e não conseguem, pessoas que têm retorno no tratamento e
não conseguem.”
Secretaria permitirá gestão mais técnica
Para Marcos Wesley, coordenador adjunto do Programa Rio Negro e área
Yanomami, a aprovação pelos senadores da criação da secretaria pode
permitir uma gestão mais técnica, mais paritária dos recursos. "Desde o
primeiro mandato do presidente Lula houve uma politização, uma
partidarização do sistema de saúde indígena, com a entrega da Saúde ao
PMDB. O noticiário tem dado detalhes chocantes de como degringolou a
situação."
Valdenir França acusa a Funasa de agir com retaliação. "Quando foi
proposta a criação da secretaria, a Funasa retirou as ações de saúde nas
áreas. Eles negam, afirmam de pés juntos que não retiraram. Na região
do Rio Negro, estamos há quase dois anos sem atendimento. Só tem resgate
de doentes em casos de emergência." E não é só na área do Rio Negro,
segundo França: "A região Yanomami está com problemas graves. Em alguns
lugares não há atendimento de saúde porque os recursos foram desviados.
Existe uma briga da Funasa com a Anac e os aviões não estão levando
socorro às aldeias. Tivemos em Porto Velho a ação da Polícia Federal que
descobriu desvios de R$ 2,1 milhões. No Amazonas, no Vale do Javari, há
uns quatro anos, foram comprados barcos e motores para aquela região e
até hoje não há esses equipamentos lá."
Marcos Wesley acrescenta: "Por causa da interrupção dos vôos foram
liberados R$ 300 mil para a compra emergencial de horas de helicóptero. A
empresa JVC, de Manaus, ganhou essa licitação com um valor de R$ 5.380 a
hora, mesmo com a empresa Paramazônia oferecendo R$ 3.300 a hora". O
coordenador do Programa Rio Negro informa que em 15 dias foram usadas as
58 horas, cobrindo a ausência de aviões. "E, na semana passada, o
Distrito Sanitário Yanomami (DSY) suspendeu o uso do helicóptero porque
isso é insustentável, considerando que a Funasa-RR não recebe repasse de
recursos há dois meses. Não tem mais dinheiro para hora-vôo nem para
insumos."
O serviço de saúde de má qualidade que vinha sendo prestado pela Funasa
somado à interrupção dos vôos e à falta de medicamento para combater a
malária, elevaram assustadoramente tanto a malária vivax quanto a
falsiparum na Terra Indígena Yanomami, principalmente nas regiões de
Marari e Auaris, diz Wesley.
Proposta de campanha de Lula
Edmilson Terena lembra que os índios pedem apenas o que era proposta de
campanha do Presidente Lula em 2002. “Ele prometeu dar autonomia aos
distritos e criar uma secretaria específica para atender a saúde da
população indígena. E até hoje isso não aconteceu.” De acordo com
Terena, o grupo de trabalho de saúde indígena do Ministério da Saúde
propõe a reestruturação física e logística dos distritos, para dar
condição ao profissional de saúde de trabalhar nas aldeias. “É preciso
adotar uma política de recursos humanos, com concursos, o que não há na
Funasa há muito tempo. Só há contratos temporários que precisam ser
renovados a cada período. Queremos concursos para que o funcionário seja
efetivado como profissional de área indígena. Queremos discutir a
criação de uma conta especial para receber os recursos da secretaria de
atenção básica e levá-los a uma conta controlada pelos distritos. Hoje,
esses recursos são repassados para os municípios e não chegam para o
atendimento nas aldeias. Os prefeitos contratam amigos, parentes, gente
que não tem capacitação para a saúde indígena.”
Edmilson Terena cita outro caso que poderá ter solução com as mudanças
aguardadas pelos indígenas. “A maioria dos sistemas de abastecimento e
tratamento de água das aldeias foram superfaturados e ainda ficam sem
manutenção. No contrato está que o material é de boa qualidade, mas
quando chega à aldeia se vê que é de última qualidade. Isso vai acabar.”
Ele conta que a Funasa informa que 75% das aldeias têm saneamento
básico de boa qualidade. “Como usuário, digo que isso acontece no máximo
em 25% das aldeias. Se não tratamos do saneamento básico, crescem os
problemas de doenças gastrointestinais, desnutrição, infecções que
obrigarão a deslocamento para hospitais nas cidades, além do aumento no
consumo de remédios. Nunca conseguimos expor isso à Funasa. Ela nunca
aceitou discutir.”
Luiz Brazão disse que os índios não têm conhecimento da proposta da
senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), autora do relatório do PLC que será
votado dia 3. “Mas queremos que ela mantenha o projeto do jeito que foi
elaborado em relação à criação da secretaria.”
Apoie a campanha pela criação da secretaria especial de saúde indígena. Mande uma carta aos senadores.
Ypiranga,1229 - Vila São Luiz -Cep. 79825-140 - Dourados - MS - Tel. (67) 3422-2617.
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