A luta dos mais de 400 índios xicrins da Aldeia Bacajá contra a
construção da Usina de Belo Monte, no centro do Pará, ganhou ontem a
adesão de dois visitantes inesperados: o cineasta James Cameron e a
atriz Sigourney Weaver. A dupla chegou ainda pela manhã à aldeia, numa
viagem de lancha pelo Rio Xingu, e foi recebida com festa e danças.
Cameron disse que, se depender de seu empenho, a hidrelétrica não será
construída.
"Vim aqui dizer que estou numa missão pela vida, pelo rio e pela
floresta", acrescentou o cineasta. A atriz também conversou com os
líderes da tribo e procurou informações sobre o modo de vida dos
xicrins, demonstrando ter ficado impressionada com a determinação das
mulheres em impedir que a hidrelétrica destrua o meio ambiente da
região. O cineasta perguntou aos índios de que maneira a hidrelétrica
vai afetá-los e ouviu respostas que o deixaram preocupado. A aldeia
está localizada na parte mais seca do Rio Xingu.
A diretora da Fundação Viver, Produzir e Preservar (FVPP), Antonia
Martins, disse ao Estado que a presença de Cameron e Weaver no Xingu
significa um "grande impulso" ao movimento contra a obra. "São pessoas
simples, apesar de famosas em todo o mundo, e trazem uma mensagem de
quem já viu seus índios e suas florestas serem destruídos", emenda
Martins.
O lago de quase 500 km² que será formado com a construção da usina vai
inundar a aldeia, obrigando os índios a sair do local. Martins disse
que, além da pesca e do peixe, espécies nobres da fauna desaparecerão.
No Xingu, esclareceu, há espécies de peixes que nem sequer foram
estudadas. A navegabilidade do rio também será atingida, segundo relato
dos índios a Cameron.
Para ela, a visita tem um simbolismo especial. "Não interessa se eles
são estrangeiros, mas o apoio que estão trazendo à nossa causa
ambiental e à sobrevivência de nossas comunidades." Martins informou
que várias reuniões estavam programadas entre as lideranças dos
xicrins, o diretor e a atriz, que deveriam deixar a aldeia na manhã do
dia 14/04 .
Mundurucânia
Na vasta Mundurucânia, no alto Tapajós, habita o deus criador do mundo, Karosakaybu, segundo os Munduruku (MELLO, 2006).
Um
deus tão poderoso que transformaria homens em animais e protegeria os
Munduruku para que não lhes faltasse caça e pesca. A harmonia com a
natureza estaria assegurada com tão importante protetor.
E
ele fez, com seu poder de deus, surgir o paraíso no rio Tapajós
adicionando-lhe um local especial com cachoeiras e corredeiras, palco
sagrado para os cantos e danças das mulheres Munduruku. Continuar lendo a história dos Munduruku
Então,
chegou o dia em que ousaram profanar esse território sagrado. E o véu
místico formado por centenas de cânticos e rimas que ecoavam nas pedras
e nas águas foi arrancado pela pressão dos engolidores da floresta e
perdeu-se nos escaninhos da história. Então, o silêncio desceu sobre o
lugar sagrado e a inocência dissipou-se nas espumas. Ritos e cerimônias
já não são mais ouvidos e espalhados pelo rio poderoso e belo.
Ainda
hoje os Munduruku contam suas histórias no esforço de manter um elo com
suas crenças e valores ameaçados pela realidade do mundo moderno.
Buscam o irreal para tentar adicionar um tanto de sonho às ambições dos
jovens indígenas com destino ainda não delineado. A insegurança é o
inimigo contra o qual, hoje, os Munduruku têm que lutar.
Das
guerras, as cabeças do inimigo como troféu. Nas flautas e nos cantos
ainda guardam a forma de encantar os animais nas florestas e encontram
o último resquício da magia da sua história. Restam os Xamãs, únicos
que podem invocar as Mães da Caça numa súplica contra os seres que
querem ameaçar os animais.
A vasta região da Mundurucânia, referida por Aires de Casal (1976), foi descrita da seguinte maneira:
“confina
ao sul com a Juruena, tem ao norte o Rio Amazonas, ao poente o da
Madeira, e ao nascente o Tapajós. Seu comprimento norte-sul é de
noventa léguas na parte oriental, e a largura média de sessenta, com
uma área de quarenta e quatro milhas quadradas” (CASAL, 2006).
Projetos hidrelétricos ameaçam os Munduruku
A
convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre
Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes estabelece, como
conceitos básicos, a consulta e a participação dos povos indígenas
interessados e o direito desses povos de decidir sobre suas próprias
prioridades de desenvolvimento. As decisões políticas em gabinetes de
Brasília que levam à construção de aproveitamentos hidrelétricos que
interferirão em Terras Indígenas podem afetar vidas, crenças,
instituições, valores espirituais e a própria essência do indivíduo.
Como
Estado-membro da OIT e detentor de um assento permanente no seu
Conselho de Administração, o Brasil teria obrigação de garantir aos
povos indígenas os seus direitos para salvaguardar suas culturas. Isso
é lapidar e consta, inclusive, na publicação em comemoração a entrada
em vigor da Convenção nº 169 no Brasil, em julho de 2003, um ano após a
sua ratificação.
Os
impactos causados pelas hidrelétricas previstas no rio Tapajós
atingiriam duas terras indígenas, além de afetar a Terra Indígena (TI)
Kaiabi, que acompanha o rio Teles Pires por 280 km,
e que é contigua à TI Munduruku. Na região, o município de Jacareacanga
é considerado uma cidade indígena e está 60% cercado pelas terras dos
Sai Cinza, Mundurucânia, Kayabi e Munduruku. A Terra Indígena Munduruku
é a maior e ocupa 12% da bacia do Tapajós.
Os
Munduruku, cujo primeiro registro data do final do século XVIII, vivem
no ambiente da floresta e nas áreas de savana que entremeiam a floresta
Amazônica, chamadas de “campos do Tapajós”, no próprio vale do rio
Tapajós. Guardam ainda todos os traços da cultura ancestral de aldeias
circulares com praças centrais. A agricultura de subsistência e as
atividades de caça, pesca e coleta são ainda praticadas como
verdadeiros rituais.
A
relação desses indígenas com o ambiente natural é estreitíssima e no
Inventário Hidrelétrico dos Rios Tapajós e Jamanxim (2008) está
consignada no texto sobre os Munduruku:
“A
preservação e o desenvolvimento dessas culturas dependem,
fundamentalmente, da manutenção daqueles grupos indígenas em seus
territórios, o que favorece a sua autonomia e a continuidade das suas
relações com os ambientes a que se ligam.”
“Nas
aldeias Sateré-Mawé têm grande importância o conhecimento e o cultivo e
beneficiamento do guaraná, sendo que esta planta é central na sua
mitologia e religiosidade.”
Política do fato consumado
As
terras tradicionalmente ocupadas pelos Munduruku estão seriamente
ameaçadas. Além dos projetos das hidrelétricas há as propostas de,
simultaneamente, incluir a construção das eclusas que transformariam o
Tapajós num rio totalmente navegável. No território da bacia
hidrográfica do Tapajós está inserido o que é considerado atualmente o
maior distrito aurífero do mundo. Empresas nacionais e internacionais
estão articuladas para explorar e expropriar, com o aval do governo
federal, esse potencial de riqueza que está dentro das terras
indígenas.
O
ecossistema da bacia do Tapajós não vai jamais assimilar as
transformações potenciais impostas pela maximização do lucro. Tentar
ocupar o território indígena com atividades minerárias e geração
hidrelétrica vai colocar em risco o regime das águas e os gigantescos
igapós formados no período das cheias; é uma agressão sem limites.
Crescimento
econômico a qualquer custo e colapsos ambientais andam de mãos dadas
para reproduzir implacavelmente os erros do passado.
Os
projetos do Complexo do Tapajós ferem o princípio do uso da água de
forma sustentável e poderão trazer graves conseqüências às comunidades
rurais, ribeirinhas e aos povos indígenas. Em momento algum antes do
processo decisório foi articulada uma avaliação das interferências que
as populações envolvidas sofrerão. A política do fato consumado é uma
constante no planejamento global do Estado. Os indígenas considerados
obstáculos junto com a natureza acabam sendo despidos de seus direitos
e forçados a conviver com mudanças que alterarão para sempre sua
relação com o habitat.
As
hidrelétricas alteram desde a velocidade da água de um rio até o clima
da região em que se insere. Uma única hidrelétrica numa bacia
hidrográfica significa a transformação irreversível de todas as
características essenciais que fazem do ecossistema a base da
sobrevivência dos povos indígenas.
As
transformações não são apenas decorrentes do período de construção;
elas persistirão por toda a vida útil do empreendimento e além,
afetando gerações e sem que as compensações apensadas às licenças
ambientais e os programas de mitigações tenham contribuído para
melhorar a e vida dos atingidos. O efeito é o de uma bomba.
As
barragens produzem o efeito arrasador de uma bomba, enviando ondas de
destruição na Amazônia na forma de ocupações irregulares e
desmatamento, induzindo a um furioso desequilíbrio ambiental. A
Amazônia é frágil e basta um único mega projeto para desencadear e
propagar a destruição.
Para
empreendedores, investidores e Estado os povos indígenas e as
populações tradicionais terão que conviver com a racionalidade
econômica ocidental. É o que se pode depreender, com clareza, dos
diversos documentos que subsidiam instâncias de tomadas de decisão. Sob
um manto de disfarce de necessidade de inovação, da tendência dita
globalizada, se pretende que os indígenas aceitem um novo padrão de
conhecimento e se curvem à obsolescência programada dos bens de
consumo. Esse seria o portal de entrada para induzir à aceitação
compulsória de uma nova estrutura física e social para os territórios
imemoriais.
Os
garimpos do Tapajós já são historicamente conhecidos e a exploração da
terra para o agronegócio o é, também, ao longo do Juruena. Construir
hidrelétricas em série nessas regiões significaria fornecer o pretexto
que políticos locais e empresas mineradoras precisam para
transformá-las em áreas legalmente devastadas.
A
dependência dos indígenas do mercado artificial que está sendo criado
pelas interferências em seus territórios alavancadas por
empreendimentos hidrelétricos só poderá servir como mecanismo perverso
de dominação e exclusão. A última palavra fica sempre, nesse caso,
apenas com os detentores do poder econômico, movidos pelo modo
capitalista de produção de energia calcado na exploração dos recônditos
mais preciosos dos biomas brasileiros. O agravante perverso é a
destruição do tecido social e cultural de populações tradicionais.
Outro ponto ameaçado é o Pantanal Mato-grossense.
Author: O Reino dos bichos