De um lado, o deputado estadual Zé Teixeira (DEM), de outro, Pedro Kemp
(PT). No meio, ao menos 15 mil índios que vivem na região de Dourados.
Desde junho de 2008, parte dos guarani caiuás, que mora em Dourados,
protesta contra a atual chefia da Funai (Fundação Nacional do Índio). A
administradora Margarida Nicoletti, responsável pelos grupos de
trabalho que fazem os estudos antropológicos na região Sul, é alvo de
criticas por não atender as demandas indígenas.
Esta semana veio à tona a decisão da administradora que colocou o cargo à disposição.
A notícia movimentou os bastidores da política. Segundo apurou o
Midiamax, o deputado Zé Teixeira apoia os índios que estão
insatisfeitos com Margarida Nicoletti. Mas, o parlamentar ruralista diz
que nada tem a ver com os protestos.
Já Kemp, conhecido como representante dos índios na Assembleia
Legislativa, defende a permanência de Margarida no posto. Ele diz que
os índios é que devem definir o melhor nome caso Margarida deixe o
cargo.
Zé Teixeira
Ruralista de Dourados, Zé Teixeira é contra a demarcação de terras
indígenas, mas defende a intervenção do Estado nas aldeias Jaguapiru e
Bororó, que são alvo de reclamação dos índios por conta da violência,
envolvimento com álcool e drogas, segundo ele.
"A gente passa de avião e vê logo que as aldeias são um bairro de
Dourados. Os índios não querem terra, querem água potável, luz,
internet banda larga", diz.
São 12 mil índios que vivem em 3,5 mil hectares em situação de confinamento, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio).
Indagado sobre a saída de Margarida Nicoletti, o deputado explica seu posicionamento.
"Não tenho interesse de que ela saia ou fique. Nem sei quem é. A Dirce
Verón (índia) me falou que dentro da Funai tinha cesta básica perecendo
e ai ela me procurou. Eles invadira a Funai e me pediram marmitex. E
por causa disso tive que prestar depoimento na PF", relata o deputado
estadual.
Porém, Teixeira diz que a saída dela pode melhorar a Funai em Dourados.
"Hoje já não tem cacique, pajé e ninguém respeita o capitão que cuidava
da segurança da aldeia. A interferência desses antropólogos atrapalhou
muito. Se ela fosse tutora responsável não teria deixado tirar os
colonos da Panambi onde são 1,2 mil hectares de capoeira. Nem está
habitado. Se ela fosse tutora responsável tirava os índios da beira da
estrada e trazia para o Panambi".
'Tiroteio'
Margarida Nicoletti é antropóloga e está em meio ao fogo cruzado que
envolve política e revela a total falta de estrutura da Funai no estado
dono da 2ª maior população indigena do País.
Segundo ela, a falta de orçamento da Funai é o principal entrave para resolver problemas imediatos na região de Dourados.
Teixeira disse ainda que foi procurado pelos guarani para tentar mediar uma solução.
"Índios foram ao meu escritório para pedir que eu intercedesse junto ao
Governo do Estado por causa da violência na Jaguapiru e Bororó. Nós
fomos à reserva e eles reclamaram da falta de atenção da Funai e que a
situação estava insustentável pela falta de segurança na aldeia. Eles
disseram que queria que a Margarida saísse". Após este episódio, o
governador disse que só atenderia o pedido se o Ministério da Justiça
lhe autorizasse já que a reserva é responsabilidade do governo federal.
Sobre a relação da situação de miséria na reserva de Dourados com a
falta de terra, Teixeira acrescentou: "Todo mundo sabe que o índio vive
a Deus dará. Isso todo mundo sabe. Mas, agora com a ajuda do André ele
recebe a assistência técnica. Em Caarapó ganharam duas patrulhas
mecanizadas. Mas quem vai pagar o tratorista? Colocar o diesel? Fazer a
manutenção? É a Funai? Não. É a prefeitura e o governo".
Insegurança
Sobre a situação de conflito indígena no Sul do Estado, o deputado
disse que o problema é que a União não resolve, não agiliza a
indenização aos fazendeiros e segundo ele, "por isso cai tudo nas
costas dos produtores rurais".
"Tenho área invadida em Caarapó. Ela chama Garari Rokó, que significa pássaro em guarani".
O deputado considera preocupante a situação de insegurança vivida pelos
ruralistas. Mas, indagado sobre o outro lado, já que em Paranhos dois
professores guarani foram assassinados, ele diz que é resultado da
falta de ação da União.
"Se a gente (ruralistas) invadir uma aldeia, uma reserva, você sabe o
que o Ministério Público e a Polícia Federal faria com a gente? Você
acha que os índios iam permitir que os ruralistas entrassem na reserva
deles? Um peso e duas medidas. Há uma falta de decisão da administração
do governo federal", diz.
Kemp
Segundo o deputado estadual Pedro Kemp (PT), a troca de chefia da
Funai, em momento em que está em discussão o estudo antropológico na
região Sul, representa interesses de grupo contrário à demarcação.
Ainda de acordo com ele, lideranças indígenas que participam do
encontro dos 300 educadores indígenas na cidade de Paranhos, defendem a
permanência dela e não aceitam a imposição política para que outro nome
assuma o cargo. Os caiuás querem ter o direito a escolher o
representante na Funai de Dourados.
Barril de pólvoras
Para Anastácio Peralta, líder guarani de Juti, que participa do
encontro de 300 professores indígenas em Paranhos, a saída de Margarida
Nicoletti, anunciada ontem em Dourados, demonstra uma preocupação de
grupos políticos que colocam interesses a frente das questões de
interesse público.
Já a Aldeia Jaguapiru, Izael Terena, que esteve à frente do movimento
"Fora Margarida" com as lideranças das demais aldeias da região sul do
Estado, elogiou Arlete. "Ela é de nossa confiança", disse. A maior
qualidade da candidata à sucessora de Margarida, conforme a líder
indígena, é saber "ouvir os índios".
Sucessão estadual
Porém, no mês passado, os guarani de Dourados pediram ao governador
André Puccinelli (PMDB) que ajudasse a intervir no caso para que a
chefe deixasse o posto. Na última semana, foi a vez do ex-governador
Zeca do PT. Embora seja de siglas rivais em Mato Grosso do Sul, eles
comungam da mesma aliança a nível nacional.
Na última semana, o deputado federal petista Vander Loubet anunciou um
nome ligado a sua corrente para substituir Margarida Nicoletti e disse
ainda que conversaria com Pedro Kemp para aparar as arestas.
A bióloga Arlete Pereira seria o nome que Loubet defende como nova
administradora da Funai no lugar de Margarida Nicoletti. Ela é casada
com o vereador petista de Dourados, Dirceu Longhi.
(Com informações de Nicanor Coelho, de Dourados)
Autor: Jacqueline Lopes