Dourados - Mato Grosso do Sul - Brasil, 05 de February de 2012.

05 de February - 2012 - 16:59

Arrumando a mala e pensando como seriam as três oficinas de cinema do Projeto Ava Marandu., senti a doce ilusão de tentar visualizá-las em minha mente.  As aldeias Guyra Roka, Jaguapiru e Panambizinho nos receberam de braços abertos. Em cada uma delas uma oficina completamente diferente e foi assim que vi que não se tem forma ou método certo, simplesmente as coisas acontecem. 

Todas começam com certo acanhamento geral, olhos curiosos, muitas risadas e conversas em um kaiowá-guarani muito rápido, reencontro de amigos, papos sobre futebol e expectativas para a oficina. Ivan Molina começa mostrando quatro vídeos realizados durante a oficina de audiovisual indígena do Vídeo Índio Brasil 2009, quando foi professor. Ao final, aplausos e assovios. Ivan comenta: “ficou bom, mas agora vamos fazer melhor! Agora o povo Guarani tem que se mostrar não só por foto, mas também por vídeos. E mostrar um povo forte, com garra e vontade”.

Outros vídeos do Brasil e da América Latina - na maioria, vídeos indígenas - fizeram parte da oficina para mostrar outras culturas e estimular a busca dos alunos pela a Guarani.

Para boa parte deles, a apresentação dos equipamentos era em silêncio, com atenção, receio e cuidado ao ter pela primeira vez uma câmera de vídeo em suas mãos. Os que já tinham sido alunos do professor Ivan Molina durante o Vídeo Índio Brasil 2009 complementavam as orientações de Ivan e transmitiam as informações em guarani para os que não haviam entendido.

As primeiras orientações de campo eram sobre ajustes básicos para uma boa imagem, íris, foco, filtro, zoom, abertura do obturador... No primeiro exercício cada um tinha que fazer uma foto com o vídeo. Depois individualmente contar uma historia em três tomadas. Logo após o primeiro exercício em grupo, tinham que fazer um filme em cinco tomadas, era aí que começava se pensar em roteiro.

Exercícios gravados, hora de assistir e comentar. Deles saía de tudo, reprodução de cenas de novela, imagens soltas que não casavam e também algumas representatividades da cultura guarani. Com isso vinha o questionamento dos professores sobre o sentido de ter gravado isso ou aquilo e também a atenção para os cuidados de uma boa imagem. Com o passar dos dias, o acanhamento vai acabando, as brincadeiras vão surgindo, os idiomas vão se misturando e todos no fim falam a língua do cinema. 

A cada exercício novas descobertas e anseios por inovações. Quando o som entra em cena, mais cuidados, tem que se ter ainda mais atenção. Hora da prova final: elaboração, produção e descoberta de uma nova etapa, a edição do filme final. Dúvidas, discussões, consultas aos mais velhos e outros detalhes que iam enchendo a cabeça dos jovens cineastas. Depois disso, roteiros prontos e em mãos, equipe dividida por funções, planejamento dos últimos ajustes para o dia de gravação, horas marcadas com a nossa equipe e cobrança de pontualidade de todos.
 
As gravações são das mais diversas: vão de ficção e hip hop aos rituais.  Não importa o ambiente para filmar, pode ser com chuva, sol, lama, poeira, dentro de rios, no meio do pântano, pasto, casas, madruga, noite, meio do dia, risadas, músicas, chicha, peixe, mandioca e muito tereré.

Toda a equipe se pintava para as gravações, marcando sua identidade. Os personagens eram incansáveis, alguns até esperavam na chuva enquanto a direção - dentro da casa - resolvia como séria a próxima tomada. Repetiam sem problemas, estavam mais preocupados que tudo saísse da melhor forma possível. E quem estava por trás das câmeras acompanhando tudo, mudava de lugar o tempo todo para não entrar nas imagens. Final das gravações todos satisfeitos e marcados para o dia seguinte, o começo da edição.
 
Orientações de decoupagem e muito trabalho. No papel todas as imagens estavam escritas e precisavam ser montadas como um quebra-cabeça no computador. De um em um iam aprendendo a cortar e dar forma às cenas filmadas. O tempo era pouco para tanto trabalho, os responsáveis pela montagem e o diretor nos acompanhava até o hotel para continuar a edição madrugada adentro. Filmes finalizados, espírito de missão cumprida, é hora de mostrar para a comunidade e ter aprovação. 

Aqueles filmes que eles aplaudiram no primeiro dia são trocados pelos que eles fizeram. Eles vêem como são capazes de fazer cada vez melhor.  Trouxemos conosco os filmes prontos, dois roteiros de cada aldeia, o sonho deles de continuar filmando, as saudades dos amigos e a vontade de voltar logo.

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